Programação criativa
Redação Scene & Code
Programação criativa

A verdadeira ameaça à Adobe não é a IA: é deixar de ser indispensável

A ArtCraft não prova que o software fechado chegou ao fim. Prova que fluxos de trabalho conhecidos podem ser reconstruídos rapidamente — dando aos usuários mais poder de negociação.

Publicado
21 de outubro de 2026
Leitura
6 min
Categorias
Programação criativa

Imagem gerada por IA

O mais importante sobre a ArtCraft não é saber se ela conseguirá substituir o Photoshop amanhã. É que um único desenvolvedor fez com que a frase “não dá para construir isso” soasse como um argumento comercial muito mais fraco.

No início de outubro, Brandon Thomas anunciou sete aplicativos de código aberto destinados a recriar as ferramentas e os fluxos de trabalho do Adobe Photoshop, Illustrator, Premiere, Lightroom, After Effects, InDesign e Acrobat Pro. De acordo com a reportagem da Ars Technica, Thomas usou o Claude Opus 5.5, da Anthropic, escreveu o software em Rust e disponibilizou versões em WebAssembly para navegadores. O projeto é distribuído sob as licenças MIT e Apache, embora ainda esteja em uma “alpha super inicial”, com limitações substanciais.

Esse último detalhe importa. A ArtCraft não é prova de que a Adobe foi derrotada tecnologicamente. É prova de que ficou mais fácil transpor os muros ao redor de softwares conhecidos — e isso muda a negociação entre usuários e empresas estabelecidas.

O avanço é o poder de negociação, não a paridade perfeita

A afirmação principal é tentadora: aplicativos fechados agora podem ser reconstruídos com ajuda de IA, talvez por um único desenvolvedor em vez de uma grande empresa. Thomas disse inicialmente que o projeto alcançaria 100% de paridade de recursos em um mês, mas depois suavizou a previsão, afirmando que chegar a 99% de paridade levaria meses, não anos. A Infobae informou que os usuários estavam recebendo software gratuito sob as licenças MIT e Apache, mas o estágio inicial do projeto continua sendo fundamental para entender o que realmente aconteceu.

De qualquer forma, uma lista de recursos é a métrica errada. Software profissional de criação não é apenas uma coleção de botões. É um ecossistema complexo de formatos de arquivo, atalhos, plug-ins, correções de bugs, comportamento de cores, hábitos de colaboração, documentação, suporte e memória muscular acumulada. Reproduzir a superfície visível é muito mais fácil do que conquistar confiança em um fluxo de produção.

Mas as empresas estabelecidas não precisam perder todos os recursos para que a ameaça seja real. Basta perderem a certeza de que os usuários não têm para onde ir. Uma alternativa rudimentar ainda pode atender estudantes, hobbistas, criadores independentes e organizações que valorizam a propriedade mais do que o acabamento. Mais importante: ela pode se tornar uma plataforma para colaboradores aprimorarem, em vez de um produto cujo roteiro pertence a um único fornecedor.

É por isso que a comparação com a Adobe é mais contundente do ponto de vista político e econômico do que o pânico habitual de que “a IA substitui desenvolvedores”. A IA não está entregando sozinha uma suíte de criação madura. Ela está potencializando um desenvolvedor que entende o alvo, toma decisões arquiteturais, avalia falhas e coordena as iterações. O recurso escasso está migrando de digitar código para especificar, testar, manter e conquistar confiança no software.

O problema de design do software fechado está na relação de assinatura

Thomas diz que as taxas de cancelamento ajudaram a motivar o projeto. Isso não é uma simples anedota; é a crítica de design que está no centro da história. Quando uma ferramenta se torna indispensável, o fornecedor pode tratar os custos de migração como uma estratégia de receita. O usuário já não paga apenas por recursos, mas pela permissão contínua de permanecer dentro de um fluxo de trabalho.

A reportagem da Universidade do Chile coloca a ArtCraft ao lado de críticas mais amplas às práticas de assinatura e observa que a Adobe concordou, em março de 2026, em pagar US$ 150 milhões ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos para encerrar um caso envolvendo supostas práticas enganosas e cobranças ocultas por cancelamento antecipado. Esses são motivos concretos para que os usuários acolham uma alternativa, mas também revelam por que “enshittification” é uma explicação fácil demais. O problema não é que assinaturas sejam inerentemente ilegítimas. É que uma assinatura pode transformar dependência em poder de negociação, oferecendo em troca pouca propriedade duradoura.

A reconstrução de código aberto ataca esse poder de negociação pela direção oposta. Ela diz que a interface que os usuários conhecem não é necessariamente a mesma coisa que a empresa à qual precisam pagar para ter acesso a ela. Essa distinção é valiosa mesmo que a ArtCraft nunca se torne uma substituta profissional confiável.

A familiaridade é poderosa — e juridicamente perigosa

Há uma distinção técnica importante entre copiar código e reproduzir comportamento. A reimplementação em sala limpa (clean room) consiste em estudar o que um programa faz, documentar seu comportamento e escrever uma implementação independente. A engenharia reversa pode ser legal em alguns contextos, mas os limites não são universais. A fonte da Universidade do Chile observa que as regras dos Estados Unidos e da Europa protegem algumas formas de investigação relacionada à interoperabilidade, embora contratos, licenças e outras restrições continuem valendo.

O risco jurídico é especialmente evidente quando um clone reproduz não apenas os fluxos de trabalho, mas também a identidade visual do original. A Ars Technica alertou que a ArtCraft poderia enfrentar problemas se seu “trade dress” — a aparência e a interface reconhecíveis dos aplicativos da Adobe — for longe demais. É um alerta útil para o movimento de código aberto como um todo: a abertura não é um escudo mágico contra toda e qualquer disputa, e “sala limpa” é uma alegação que pode ser testada, não um veredito.

É também aqui que a estratégia do projeto merece ceticismo. Reconstruir uma interface familiar facilita a adoção, mas pode fazer a alternativa parecer dependente da linguagem de design da empresa estabelecida. Os concorrentes mais fortes no longo prazo provavelmente tomarão emprestados conceitos que os usuários entendem, mas desenvolverão identidades, modelos de interação e motivos próprios para permanecer.

Comunidades de preservação praticam a mesma rebelião

A história da Adobe pertence à mesma conversa que a reconstrução de jogos clássicos liderada por fãs. A Universidade do Chile informa que agentes de IA ajudaram a levar três jogos comerciais a uma descompilação exata em 100%, incluindo Super Smash Bros. Melee e os dois títulos de Snowboard Kids. Outros projetos estão desenvolvendo ports e reconstruções de jogos como Halo, Super Mario Galaxy, Conker’s Bad Fur Day e Fable II.

Esses esforços não são idênticos à ArtCraft. A descompilação exata busca um código-fonte capaz de reproduzir um binário idêntico; a recompilação estática converte código de console em código nativo para PC; a reimplementação em sala limpa começa pelo comportamento observado e constrói algo novo. Mas, culturalmente, eles apontam na mesma direção: as comunidades se recusam a aceitar que o software se torne intocável simplesmente porque seu proprietário original parou de oferecer suporte a ele, vendê-lo ou documentá-lo.

Isso não torna toda reconstrução legal, ética ou sustentável. Mas faz o controle proprietário parecer menos permanente. Quanto mais ferramentas as comunidades puderem preservar ou recriar, menos convincente se torna a ideia de que as empresas tratem compatibilidade e continuidade como favores.

A conclusão não é que a IA matou o software fechado. A ArtCraft ainda está no início, e suas promessas de paridade continuam sem comprovação. A conclusão real é mais importante: o software fechado já não pode depender apenas da escassez para justificar seu preço ou o aprisionamento dos usuários. A Adobe e suas concorrentes deveriam competir em serviço, confiabilidade, colaboração, suporte e inovação genuína — não com base na suposição de que os usuários não conseguem reproduzir o fluxo de trabalho.

Para os leitores, a resposta sensata não é abandonar as ferramentas profissionais da noite para o dia nem descartar a ArtCraft como um brinquedo. Acompanhe o projeto, apoie alternativas abertas quando elas atenderem às suas necessidades e valorize softwares que permitam manter o controle sobre seu trabalho. O futuro vencedor ainda pode incluir aplicativos proprietários. Só não deveria exigir que os tratemos como insubstituíveis.

Temas de debate

Ainda não há temas: abra o primeiro.

Mais matérias

Redação Scene & Code
···
Programação criativa

Linux 7.3 faz a pilha gráfica importar mais do que nunca

O trabalho da Valve no kernel melhora o gerenciamento de memória das GPUs AMD e a recuperação de falhas, com possíveis implicações para a programação criativa — mas sem ganhos garantidos.

6 min de leitura Português (Brasil)